As festas de Santos Reis ou as folias de reis chegaram ao Brasil ainda no período colonial e se espalharam por quase todo território nacional. Os festejos têm suas raízes nos relatos bíblicos e na tradição cristã, que cita a peregrinação dos reis magos seguindo uma estrela até chegar a Jesus e reverenciarem o menino Deus. Aqui, o festejo ganhou suas regionalidades e contribuições de outros povos, como africanos e indígenas.
É o caso do reisado da comunidade quilombola da Lagoa do João, a história do terno de reis remonta a chegada dos primeiros moradores ao quilombo. Segundo fontes orais, a localidade era considerada ponto de referencia para negros que fugiam da seca do sertão migrando das “bandas do Rio Gavião” para a Lagoa do João. A ocupação do território também marca a chegada dos reis através do casal Pedro Casimiro e Vicência, na segunda metade do século XIX.
Atualmente o terno de reis tem a liderança do Sr. Manuel Fonseca (75 anos), rezador, curador e reizeiro. Segundo o Sr. Manuel, a vida dedicada ao reisado começou aos 12 anos quando começou a acompanhar e aos 19 anos ele começou a tirar os reis. Desde então, ele afirma que “se eu não sair com o terno de reis eu adoeço”.
O orgulho recente do Sr. Manuel é o de ser reconhecido como o reizeiro dos quilombolas. A Lagoa do João teve sua reminiscência quilombola reconhecida pela a Fundação Cultural Palmares em 2011, a partir de então o reisado da comunidade passou a ser mais valorizado e a ser convidado para apresentações em outras localidades e até em outros municípios, levando o nome do quilombo e do reisado. “Mas eu faço parte assim dos quilombolas que eu sou o reiseiro dos quilombolas, sabe? Eu ganhei um título aí eu represento os quilombolas”.
O terno de reis da Lagoa do João é uma das manifestações que definem suas diferenciações frente a outras comunidades, demarcam fronteiras simbólicas, afirmam e (re)afirmam sua identidade, os seus limites de pertencimento e seus vínculos sociais. Segundo o Sr. Manuel, o seu terno de reis é conhecido como o “Terno de Manel Doido”, isso por conta da alegria e vontade de cantar e visitar o máximo de casas possíveis. Em outras entrevistas na comunidade, moradores relataram que no passado o povo de comunidades vizinhas falava “olha lá os negros da Lagoa do João” como uma forma de discriminar. Talvez o próprio nome do terno seja uma forma de ressignificar estereótipos e o transformar em um elemento da identidade que apoia-se numa ancestralidade negra, que resiste desde os tempos dos velhos Casimiro e Vicência.
Um terno de reis não se faz apenas com o líder, diferentemente da cidade que tem uma oferta maior de foliões, no Campo o espírito coletivo do grupo precisa ser acionado. Em apenas uma conversa não é possível tecer quais os motivos levam, há mais de um século, a existência do terno de reis na comunidade. Para o Sr. Manuel, se não sair adoece, já para Dona Almira e Sr. Pedro Felix, é uma herança de família, “veio do meu avô, passou para meu pai e agora sigo com o terno de reis enquanto tiver forças para seguir”.
A ancestralidade, a fé, o costume e a devoção são elementos presentes no reisado da Lagoa do João. E vai além, o terno de reis é uma forma de mostrar que mesmo sofrendo os preconceitos e estereótipos são reiseiros que cantam os 25 versos dos Reis Magos, distinguem o que é Reis do Oriente e Reis Mago, tocam instrumentos, entoam ritmo e levam alegria por onde passam. Se para o Sr. Manuel é motivo de orgulho ser o reiseiro dos quilombolas, para outros do grupo se um reiseiro já é motivo de orgulho e é importante para sua identidade pertencer ao terno de reis.
Quando chegamos na casa do senhor Manuel para a entrevista, ele fez questão que fosse na Casa de Arrumação, onde guarda os instrumentos e só começou a entrevista quando sua irmã Almira chegou. Dona Almira, brinca que as suas vozes combinam e formam a parceria perfeita dos reis. Com o decorrer da entrevista, mesmo com a mão imobilizada, chamou uma filha para assumir o bumba e entoou um canto de reis. Os sons das batidas do bumba espalharam-se pelas serras da comunidade e, guiados pelos os batuques, chegou o Sr. Pedro Félix que, sem cerimônias, já pegou o pandeiro.
O senhor Pedro Félix conta que ouviu o barulho do bumba e logo identificou que era reis, e veio vê. Logo assumiu as flautas, sua paixão e, juntos, entoaram mais um reis. O que era uma simples entrevista virou uma folia de reis, motivo para se aproximar mais pessoas. Percebemos que o terno de reis é um patrimônio de todos, uma manifestação que aciona a coletividade, reciprocidade e solidariedade do grupo. Mesmo com as tensões que rodeiam o cotidiano, o festejo de Santo Reis é um momento de deixar as diferenças de lado e (re)afirmar que são reizeiros, quilombolas e pertencentes a um grupo.
Os mais velhos sempre expressam a preocupação do terno de reis acabar, do descompromisso dos mais novos ou mesmo a necessidade dos jovens precisarem sair da comunidade em busca de trabalho e não voltarem. A preocupação é que houve uma quebra na tradição e de que são a última geração de reizeiros da região. De fato, é uma preocupação que carece de nosso cuidado, principalmente com a chegada das igrejas protestantes na comunidade, a falta de políticas de incentivo às culturas locais e a falta de oportunidades para os jovens no campo.
Nos últimos anos em que estive presente na comunidade, em vários aspectos, a preocupação da descontinuidade das tradições se fez presente. Neste tempo em que novas luzes deram o ar da sua graça e outras se apagaram, viraram memórias, somos impulsionados a pensar em formas de contribuir para que memórias tão importantes para a comunidade e para o reisado não se percam.
O Sr. Pedro Félix, que sempre foi guiado pelos sons do bumba, encerrou seu ciclo de passagem por aquelas terras montanhosas. Ao partir, deixou inúmeras perguntas que alimenta intensas lacunas não preenchidas, mas os relatos para o Porta Aberta e as memórias deixadas, continuarão a serem transmitidas, ressignificadas e repassadas.
Novos reiseiros tomarão o posto de flautista, histórias e mitos do reisado serão rememorados, tradições e costumes não ficarão congelados ao longo do tempo. A história caminhará e o reisado da Lagoa do João manterá os princípios e valores que são resguardados culturalmente, seguirão seu processo natural, construindo e se (re)construindo cotidianamente.
O que ficou mais evidente é que nem todos os saberes são repassados. O reisado não permanecerá da mesma forma sem a liderança do sr. Manuel. Os cantos não terão sempre a boa memória de Dona Almira. A flauta não terá o mesmo ritmo do Sr. Pedro Felix. Porém, os laços de amizade e a coletividade permanecerão iluminados pelas lentes da ancestralidade.
Isaac Dias
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